Não se constrói igreja pela cruz, nem se faz saúde só construindo hospitais

Por:
Dr. Gustavo Bernardes
Cirurgião Geral

Falar de saúde no Distrito Federal se tornou fácil. E reclamar das atitudes e decisões tomadas de forma errada é confortável.

A pandemia nos faz refletir sobre qual modelo de saúde publica queremos para nós e nossa família. Não dá mais pra errar.

Só que, nos comportando como se estivéssemos tentando acertar e de forma amadora.

Assim perdemos a oportunidade de propormos um outro caminho, que nos leve a uma solução duradoura, onde a atenção básica seja, definitivamente, fortalecida e compreendida como a base do Sistema Único de Saúde (SUS). Se o posto de saúde e o programa de saúde da família não funcionam como deve ser, os problemas nas UPAs e hospitais vão continuar como vemos atualmente.

A atenção básica ou atenção primária em saúde é conhecida como a “porta de entrada” dos usuários nos sistemas de saúde. Ou seja, é o atendimento inicial. A atenção básica funciona, portanto, como um filtro capaz de organizar o fluxo dos serviços nas redes de saúde, dos mais simples aos mais complexos.

Temos que entender que para fazer o sistema funcionar e construir uma solução de saúde duradoura e de qualidade para a população, temos que começar, organizando e priorizando a atenção básica. Temos que começar pelo começo. Não se constrói igreja pela cruz.

É importante registrar que ao longo do tempo tivemos gestões melhores ou piores na saúde e que algumas até tentaram contribuir, à sua maneira, para melhorar o sistema do SUS no Distrito Federal (DF). No entanto é inegável que nos últimos 20 anos, pelo menos, perdemos várias oportunidades de avançar para um cenário mais favorável na saúde pública.

Planejamento é a chave do sucesso de qualquer gestão, seja ela, pública ou privada. Então…

Se pensarmos em relação à estrutura física disponível, hospitais e postos de saúde, por exemplo, há muito sabemos que é insuficiente. Sem falar no péssimo estado de conservação dessas estruturas físicas, que corrobora para aumentar as dificuldades em tratar o paciente, agravando ainda mais a situação. Temos também uma grande defasagem de recursos humanos e ausência total de mecanismos de gestão de pessoas e controle do abastecimento de insumos, medicamentos e equipamentos.

Dinheiro não falta. O DF tem um orçamento de mais de R$ 8 bilhões de reais só para a saúde. O problema é que se gasta muito e mal.

Ora, aparentemente parece fácil resolver este problema. E é!
Bastaria construir novos hospitais, fazer a manutenção e modernização dos hoje existentes e contratar mais profissionais de saúde e de apoio, certo? Não.

O que vemos é que, entra governo, sai governo e quase nada se resolve nesses quesitos.

Independente das razões para isso, a solução é uma só: planejamento em longo prazo. Projetos de inovação e modernização de hospitais, com contratos de recursos humanos, abastecimento e manutenção, bem como implantação de novos e modernos mecanismos de gestão.

Apesar de ser algo indesejável, a pandemia da COVID-19 nos mostrou que quando queremos, conseguimos, com relativa facilidade, construir estruturas grandes e duradouras em tempo reduzido, apesar de atrasos. Mas, a mesma pandemia, nos mostra que, apenas isso, não basta. Temos que ter gestão. E que seja qualificada.

Essa pandemia vem para exigir ainda mais da atenção básica agora e, consequentemente, no pós pandemia. Já contabilizamos uma legião de pacientes que carecem de tratamentos contínuos surgidos depois da contaminação pela Covid19.

Portanto, o próximo governante do DF, só tem uma saída: realizar uma expansão robusta da estrutura médico/hospitalar da Secretaria de Saúde, modernizar os hospitais e postos de saúde existentes e ampliando seu quadro de RH, focando na qualificação dos profissionais. Terceirizar serviços complementares, como segurança patrimonial, limpeza, hotelaria e alimentação, através de empresas prestadoras de serviços, dividindo em lotes que atendam apenas algumas estruturas por cidades ou regiões de saúde, evitando assim, monopólios de uma ou duas empresas, como é atualmente.

Até poucos dias atrás, tínhamos uma única empresa fornecendo alimentação para todos os hospitais do DF, há mais de 30 anos. Faliu e foi substituída por outra, nos mesmos moldes. E toda a estrutura fica refém de uma única empresa. Isso não funciona.

Outro exemplo de como não há planejamento, está no método como se compra medicamentos e insumos para as estruturas de saúde no DF. Usamos métodos ultrapassados e ineficientes que nos leva ao desabastecimento constante, compras emergenciais e gastos exorbitantes e desnecessários.

Compramos depois que já está faltando, porque não há planejamento, controle de estoque, nem sistema de acompanhamento da distribuição e consumo nos hospitais e postos de saúde.

Para se ter uma ideia, nos hospitais privados, se o médico ou a enfermeira aplica uma injeção ou dar um comprimido para o paciente, eles têm que anotar no sistema de gestão daquela unidade, que é interligado ao controle de estoque e assim acompanhado e faturado, gerando despesa e receita, bem como a gestão efetiva dos estoques.

Na rede pública, nada disso é feito com seriedade. Não há acompanhamento, nem controle racional do consumo dos medicamentos, nem dos insumos utilizados pelos pacientes. Se não há controle, não há organização. Por isso gasta-se mal e não se chega a um atendimento digno para a população..

Graças a Deus e a engenhosidade humana inventaram o computador há décadas. Só que computador é apenas a máquina. Precisamos investir em sistemas de gestão hospitalar, capacitar à força de trabalho, e exigir que esses sistemas sejam alimentados com dados confiáveis.

Só assim, poderemos gerenciar os estoques com informações reais sobre o uso/gasto, em seguida planejar compras e garantir o suprimento constante e necessário para o atendimento dos usuários dos serviços de saúde. Se comprarmos com antecedência, pagamos menos e não sofremos com faltas no estoque, que muitas vezes levam pacientes à morte.

Já existem várias soluções modernas e eficazes de gestão de controle, estoque e logística de suprimentos para a área da saúde, basta pôr em prática uma delas, de maneira séria e efetiva, alcançando o equilíbrio entre compras, armazenamento e entregas. Porém, só conseguimos esse feito com vontade política dos governantes.

Precisamos, também, investir em uma gestão de pessoal moderna e humanizada. Nossos recursos humanos fazem o atendimento à população. Precisam ser valorizados. Aqui não falo apenas de salários. Falo de condições de trabalho e qualidade de vida. Precisamos conhecer os nossos profissionais de saúde e o que eles pensam do local e da forma como trabalham. Temos que humanizar essa relação entre o estado e o profissional e do profissional com o usuário do sistema de saúde. São cidadãos que atendem cidadãos.

Não adianta ficar com o velho discurso de construir hospitais e contratar pessoas. É preciso humanizar e modernizar a gestão de verdade. Começando pelo começo. Como já disse: Não se constrói igreja pela cruz.

A solução vai por esse caminho. Simples, transparente e eficiente!