Desvio de dinheiro, assédio sexual e violência contra a mulher: conheça a chapa Renovar é Preciso, candidata à Diretoria do Sindilegis

Uma trama criminal digna de cinema tomou conta da eleição do Sindilegis, que elegerá nesta segunda-feira (30) a nova Diretoria que irá comandar o sindicato dos servidores da Câmara, Senado e TCU entre 2021 a 2025. Foram reveladas fotos de uma conversa na qual Loisse Daielle, gerente da Pública Central do Servidor e assessora da chapa de oposição à atual gestão do Sindilegis, promete emprego a uma ex-funcionária do Sindicato caso ela aceite dar uma declaração para forjar uma denúncia contra a entidade no Ministério Público.

A ex-funcionária diz: “Vc sabe que não trabalho mais no Sindilegis né?”, ao que Loisse Daielle responde: “Não trabalha ainda né rss. Vai voltar no ano que vem se ganharmos né”. Em seguida, ela vai direto ao ponto: “Seguinte, precisamos da sua ajuda. O pessoal da chapa está bem organizado e vamos impugnar a chapa deles. A ideia é juntar uma declaração sua explicando como se deu a questão das reformas e a entrega do prédio e dizendo que não houve a tal festa dos sindicalizados. Ao mesmo tempo, juntaremos declaração da Marina dizendo que foi usado dinheiro para essa festa que não ocorreu. (…) Com esses documentos, entraremos com ação junto ao MP”.

A ex-funcionária afirma que não sabe nada sobre o assunto e depois de algumas tentativas Loisse desiste. A conversa ocorreu ao longo dos dias 21, 24 e 27 de outubro. Pouco tempo depois, no dia 13 de novembro, o Blog do Servidor, do Correio Braziliense, publicou matéria afirmando que o Ministério Público está investigando denúncias anônimas de irregularidades na gestão do Sindilegis. Não há, no entanto, menção ao número do inquérito ou ação civil pública instaurada.

O sindicato nega as acusações e afirma que até agora, 15 dias depois, não foi sequer notificado, mas oficiou imediatamente o MPDFT (ofício n° 188/PRES/2020 protocolado sob o nº 08191.1300950/2020-21) solicitando acesso à “denúncia” e oferecendo total apoio na apuração das informações. “Essas mensagens deixam claro que de anônima essa hipotética denúncia não tem nada. Atacar a imagem do sindicato com mentiras é um crime contra todos os nossos filiados”, afirmou uma filiada ouvida pela reportagem que preferiu não se identificar.

A trama não para por aí. Loisse teve por muitos anos como chefe na Pública o ex-diretor financeiro da entidade, Márcio Costa. Servidor da Câmara, Costa foi diretor do Sindilegis na gestão do ex-presidente Nilton Paixão e concorre pela chapa de oposição ao cargo de diretor administrativo. Como diretor financeiro da Pública, ele deixou ao Sindilegis um débito de aluguel, condomínio e IPTU da sala do sindicato locada para funcionamento da Pública. A dívida e a falta de prestação de contas levaram o sindicato a se desfiliar da central e buscar reaver na Justiça (ação nº 0706113-56.2020.8.07.0001) o prejuízo de R$ 349.395,77. Fica claro o interesse de ambos no arquivamento do processo.

Relações perigosas
Outro personagem importante nessa história é a tal Marina que, segundo Loisse, daria declaração “dizendo que foi usado dinheiro para essa festa que não ocorreu”. Marina Noleto Siqueira também é ex-funcionária do Sindilegis, muito próxima de dois outros personagens importantes. Um deles é o servidor Dario Fava Corsatto, candidato a diretor jurídico pela chapa de oposição. Dario é auditor do TCU e foi eleito diretor administrativo do Sindilegis na atual gestão, quando foi chefe de Marina. Ele renunciou ao cargo no primeiro ano do mandato e Marina foi demitida meses depois. Dario é amigo e sócio do outro ex-diretor do Sindilegis: Eduardo Dodd Gueiros, que também renunciou. Dario e Dodd, ou Batman e Robin, como são conhecidos no TCU, são sócios na Cooperativa Habitacional dos Auditores e Servidores Federais (COOPHAF), presidida por Corsatto. Marina é sócia da esposa de Dodd em uma empresa que, coincidentemente, divide o mesmo endereço que a cooperativa. Ou seja: a Marina que daria uma declaração para forjar a denúncia no MP é uma amiga próxima do candidato a diretor jurídico pela chapa de oposição, dividindo com ele a sala onde funciona a sua empresa. Marina também seria recontratada para dar essa declaração?

Assédio sexual e violência contra a mulher
Como se já não houvessem tantos interesses envolvidos para abocanhar a próxima gestão do Sindilegis, Dario e Dodd não renunciaram por acaso. Dario Corsatto carrega quatro boletins de ocorrência: três foram registrados na Delegacia da Mulher (Termos Circunstanciados 119/2014 DEAM I; 399/2016 DEAM I; e Ocorrência nº 1.910/2006-0), um deles por uma diretora do Sindilegis que o denunciou por agressão. Um funcionário do sindicato também registrou uma denúncia (Ocorrência nº 14.114/2017-0) contra Dario por injuria e ameaça. Mas o principal motivo que levou à renúncia do ex-diretor administrativo do sindicato foi não aceitar a redução do valor dos contratos determinada pela Diretoria. “Como alguém pode ser contra a redução de custos?”, questionou outro servidor filiado ouvido pela reportagem.

A violência contra mulheres também foi a razão do afastamento de Dodd, amigo e sócio de Dario: ele foi acusado de assédio moral e sexual por funcionárias do sindicato. Foi aberta uma sindicância para apurar os fatos e Dodd renunciou antes do anúncio do resultado que poderia determinar a sua expulsão.

Márcio Costa, Dario Corsatto e Dodd Gueiros faziam parte do grupo liderado por Nilton Paixão, que presidiu a entidade entre 2010 e 2017. Eles integraram as duas últimas diretorias do Sindilegis, inclusive a atual, em mandatos consecutivos. Após a renúncia de Dario, ambos tentam retornar ao sindicato como candidatos da chapa “Renovar é Preciso”, encabeçada pelo presidente da associação dos auditores do TCU (Auditar) Wederson Moreira e pelo consultor do Senado e ex-secretário de Saúde do DF Fábio Gondim.