Brasília possui apenas um hospital apto a tratar o coronavírus

Ministério da Saúde anunciou que há nove suspeitas de coronavírus. Os casos estão localizados em Minas Gerais, Paraná, Ceará, Rio de Janeiro (um cada), Santa Catarina (dois)e São Paulo (três). Todos são relacionados a pessoas que estiveram na China, mas nenhum foi confirmado. O mais perto de uma confirmação ou descarte do diagnóstico é o caso da estudante de Belo Horizonte, que está internada no Hospital Eduardo de Menezes, em BH. Diante do aumento do número de possibilidades de contaminação, o governo se mobiliza mais fortemente para manter o controle da situação e, a partir desta quinta-feira (31/1), o Ministério da Saúde informa diariamente sobre as medidas contra o novo agente infeccioso. O governo, inclusive, já tem preparadas unidades de saúde para o pronto atendimento dos possíveis infectados em vários estados.
Ainda de acordo com o ministério, 20 casos foram notificados pelas secretarias de saúde de alguns estados, mas não se enquadram na definição de suspeito pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e, por isso, foram excluídos. Mais quatro foram descartados porque exames diagnosticaram outras doenças, como a gripe H1N1. “Não há confirmação de nenhum caso de coronavírus no Brasil. Este é o cenário atual”, disse o secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson de Oliveira.
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O secretário afirmou que uma das medidas motivadas pelo surgimento do vírus, que ainda não foi completamente determinado, será a recriação do Grupo Executivo Interministerial de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional e Internacional. O dispositivo será definido por meio de um decreto, que deve ser publicado nesta quinta-feira (31/1) no Diário Oficial da União (DOU). O Palácio do Planalto confirmou a recriação do grupo. 
De acordo com o secretário, o grupo foi criado em 2005 para preparação para uma pandemia de influenza. Uma de suas funções era “solicitar e acompanhar a alocação dos recursos orçamentário-financeiros para atender e manter as medidas requeridas em caso de emergências em saúde pública”.
O ministério se disse preparado para enfrentar o vírus caso seja confirmado um caso no Brasil. O secretário executivo da pasta, João Gabbardo, destacou que há hospitais de referência que seguirão protocolos. “Temos hospitais de referência, com ampla capacidade de atendimento, que seguem protocolos do plano de contingência alinhado às realidades de cada estado”, disse.
A confirmação de um caso leva o Brasil a declarar emergência de saúde pública. O nível do Centro de Operações de Emergência (COE), instalado na última quinta-feira, já subiu para o nível 2, de perigo iminente, em uma escala de 1 a 3. O secretário explicou que uma mudança na classificação da situação global feita pela OMS não mudará nada nas ações do ministério.
“Nossas ações estão alinhadas, inclusive prevendo esse escalonamento da emergência internacional. Possivelmente, países que não se mobilizaram, que não é o caso do Brasil, com a declaração de uma emergência internacional, vão se mobilizar”, ressaltou Wanderson. Nesta quinta-feira (31/1), um comitê especial da OMS se reúne para definir se declara emergência sanitária global diante do novo coronavírus.

Confirmação

De terça para quarta-feira, o número de suspeitas passou de três para nove, mas isso era esperado pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, já que definição de caso suspeito mudou no mesmo dia. De acordo com a OMS, todas as pessoas vindas da China nos últimos 14 dias, que apresentem febre e sintomas respiratórios, podem estar contaminadas. Anteriormente, apenas pessoas que apresentem febre e sintomas respiratórios, e estiveram na cidade de Wuhan, epicentro da doença, nos últimos 14 dias, seriam suspeitas.
O Ministério da Saúde divulgou nesta quarta-feira (29/1) uma lista de unidades hospitalares capacitadas para atender pacientes que estejam contaminados pelo coronavírus. Exceto por Roraima, todas as demais unidades da Federação estão prontas para atuar em casos de infecção pelo agente.
Hospitais de referência para tratamento

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Maior capacidade de contágio 

Em um século marcado por epidemias causadas por diferentes tipos de coronavírus, a proliferação de mais um agente da família viral reacendeu o alerta sobre a possibilidade de um surto a nível global, especialmente porque o 2019-nCov, agente infeccioso mais recente, tem demonstrado uma maior capacidade de contágio. Apenas na China continental, epicentro dos episódios de contaminação, os casos de infecção pelo novo coronavírus superaram, por exemplo, os da Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars): já são mais de 6 mil pessoas com o vírus 2019-nCov no país, número superior ao total registrado durante a crise da Sars, entre 2002 e 2003, que foi de 5.327 chineses infectados.Continua depois da publicidade

(foto: AFP)
(foto: AFP)

Mas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a taxa de mortalidade do novo coronavírus é inferior à da Sars. Enquanto a epidemia de quase 20 anos atrás matou 10% dos infectados, as mortes pelo 2019-nCov atingiram 2% dos afetados.
Para a comunidade científica e de saúde sanitária, o que mais preocupa é a falta de informações detalhadas sobre a nova mutação. Apesar de ser 85% semelhante ao genoma do vírus que provocou a Sars, não se sabe qual é o hospedeiro intermediário do 2019-nCov nem se ele é transmissível por pessoas que ainda não demonstraram os sintomas provocados pela ação do novo coronavírus, que são similares aos de uma pneumonia viral ou de um resfriado, como tosse, febre e dor no corpo.
“Temos que basear nossas ações em evidências imperfeitas para criar uma estratégia de bloqueio da doença com um impacto mínimo na sociedade e economia. O mundo inteiro precisa estar alerta, precisa agir e estar pronto para qualquer caso que apareça”, disse nesta quarta-feira (29/1) o diretor executivo do programa de emergências da Organização Mundial da Saúde, Michael Ryan, em entrevista coletiva na Suíça. “O contínuo aumento dos casos é uma fonte de preocupação”, reforçou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom.
O especialista em virologia pela Universidade de São Paulo (USP) Paulo Eduardo Brandão alertou que essa forma de transmissão sem a manifestação de sintomas não foi constatada no surto da Sars. Tampouco em 2012, durante a proliferação da Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers), outra doença provocada por um coronavírus. “Se as autoridades sanitárias comprovarem isso no vírus 2019-nCov, certamente a nova epidemia será mais difícil de ser controlada. Ficará difícil, por exemplo, a elaboração de um diagnóstico rápido e eficiente dos possíveis casos de infecção, o que, muitas vezes, é crucial para evitar a proliferação do vírus”, analisou.
Segundo Brandão, as incertezas sobre o alcance da propagação do novo vírus também preocupam. “O vírus da Sars, por exemplo, afetava o trato respiratório superior e era mais fácil de ser expelido pelo pulmão. Por outro lado, o da Mers era presente na parte mais profunda do pulmão, o que tornava o seu expelimento mais difícil. Por enquanto, ainda há uma incógnita quanto a este novo coronavírus. Não se sabe se todo o pulmão está inflamado ou se apenas partes dele”, explicou.

Fonte: Quidnovibrasil/Correio Braziliense